Nenhum museu do mundo consegue resumir sua grandiosidade em um único número, mas o Hermitage tenta: mais de três milhões de peças, seis edifícios interligados às margens do Nevá e uma coleção tão vasta que, mesmo expondo milhares de obras por vez, o museu ainda guarda a esmagadora maioria de seu acervo em reserva técnica. É, ao lado do Louvre e do Metropolitan, um dos poucos museus capazes de contar sozinho toda a história da arte ocidental — e, ainda por cima, fazendo isso dentro do antigo Palácio de Inverno dos czares.
Uma dívida paga em quadros: como nasceu o Hermitage
A história do Hermitage começa, curiosamente, com uma compra feita quase de birra. Em 1764, a imperatriz Catarina, a Grande, adquiriu 225 pinturas de um comerciante de Berlim chamado Johann Ernst Gotzkowsky — entre elas, treze Rembrandts — como forma de saldar uma dívida que o próprio comerciante tinha com a coroa russa, depois que o rei da Prússia recusou o lote por falta de dinheiro. O gesto, pensado inicialmente como solução contábil, despertou em Catarina um apetite voraz por arte: em poucos anos ela já colecionava Rubens, Velázquez e dezenas de outros mestres europeus, além de camafeus, moedas, gemas gravadas e livros, acumulando quase 80 mil itens ao longo do reinado. Para abrigar o acervo longe dos olhos da corte, a imperatriz batizou seu refúgio particular de “Hermitage” — do francês para “eremitério” — erguido ao lado do Palácio de Inverno, e ali nasceu, sem que ninguém percebesse na hora, um dos maiores museus do planeta.
O Palácio de Inverno e a expansão em seis edifícios
O prédio que hoje é o coração do complexo, o Palácio de Inverno, já existia havia uma década quando Catarina começou sua coleção. Projetado pelo arquiteto italiano Bartolomeo Rastrelli e concluído em 1762 para a imperatriz Elizabeth, filha de Pedro, o Grande, o palácio somava mais de mil salas e serviu como residência oficial dos czares até a Revolução de 1917 — inclusive testemunhando o próprio levante, quando tropas soviéticas invadiram o edifício, então sede do Governo Provisório, num dos episódios mais simbólicos da queda do regime imperial. Com o tempo, a coleção de Catarina extrapolou os limites do pequeno “eremitério” original e se espalhou por prédios vizinhos construídos especialmente para abrigá-la: o Pequeno Hermitage, o Velho Hermitage, o Novo Hermitage e o Teatro Hermitage, todos interligados por passarelas internas que hoje permitem ao visitante atravessar séculos de história sem sair do calor do museu.
Foi só em 1852, sob o czar Nicolau I, que o acervo deixou de ser um privilégio exclusivo da corte e abriu as portas ao público — data que o museu ainda celebra anualmente como seu aniversário oficial de fundação como instituição pública. Entre os tesouros que se acumularam ao longo dos séculos seguintes estão a “Madona Benois”, pintura mais antiga conhecida de Leonardo da Vinci, o “Menino Agachado”, escultura de Michelangelo, e um dos maiores acervos de Rembrandt do mundo, incluindo a “Dânae”, tela que sofreu um ataque com ácido e faca em 1985 e levou mais de uma década para ser restaurada.
O Relógio do Pavão: a joia mecânica que nunca parou
Nenhum objeto do museu, porém, desperta tanto fascínio instantâneo quanto o Relógio do Pavão, um autômato mecânico de ouro fabricado na Inglaterra nos anos 1770 pelo relojoeiro James Cox, encomendado — segundo a lenda mais contada sobre sua origem — pelo príncipe Grigory Potemkin como presente para a própria Catarina. A peça reúne quatro mecanismos independentes: um aciona o relógio propriamente dito, e os outros três fazem o pavão abrir a cauda em leque, o galo cantar e a coruja girar a cabeça, tudo em sequência. É a única peça de maquinário decorativo do século XVIII conhecida que sobrevive até hoje em pleno funcionamento, sem alterações em sua mecânica original — inclusive escapando ilesa da evacuação do museu durante a Segunda Guerra Mundial.
A evacuação para os Urais: o Hermitage na Segunda Guerra
Essa evacuação, aliás, é uma das páginas mais dramáticas da história do Hermitage. Horas depois da invasão nazista à União Soviética, em 22 de junho de 1941, o diretor do museu, Joseph Orbeli, já assinava a ordem de retirada de todo o acervo para Sverdlovsk, nos Urais — cidade hoje conhecida como Ecaterimburgo. Centenas de funcionários e voluntários trabalharam dia e noite, com apenas duas ou três horas de descanso, embalando telas, esculturas e objetos em caixas preparadas ainda antes do início da guerra. Em 1º de julho partiu o primeiro comboio, com meio milhão de peças; o segundo, em 20 de julho, levou mais 700 mil itens. Um terceiro trem chegou a ser preparado, mas o cerco nazista fechou o cerco sobre Leningrado em 8 de setembro de 1941 antes que pudesse partir, e as peças restantes acabaram guardadas nos porões e no andar térreo do próprio museu, transformados em abrigos antiaéreos onde chegaram a viver cerca de 2 mil pessoas durante os 871 dias do cerco. Mesmo sob bombardeio, fome e temperaturas glaciais, a equipe do museu jamais interrompeu o trabalho de preservação, restaurando ambientes danificados e catalogando o que restava. Os trens com as peças evacuadas só retornaram a Leningrado em outubro de 1945, e a reabertura parcial do museu, em novembro daquele ano, começou justamente pela sala dedicada a Rembrandt — um símbolo e tanto de renascimento, já que a coleção de Rembrandt do Hermitage havia sido, até a década de 1930, a maior do mundo.

Os gatos do Hermitage
E então há os gatos. Desde 1745, por ordem da imperatriz Elizabeth — décadas antes de Catarina começar sua coleção de arte —, felinos vivem oficialmente dentro do complexo, originalmente trazidos de Kazan para controlar uma praga de ratos que ameaçava destruir a cozinha imperial e, depois, as próprias obras de arte guardadas nos porões. Quando a família Romanov foi expulsa do Palácio de Inverno em 1917, os gatos ficaram para trás e seguiram cumprindo sua função silenciosa. Passaram por um período difícil durante a fome do pós-guerra soviético, quando desapareceram quase por completo, mas foram reintroduzidos em meados dos anos 1950 diante do avanço descontrolado dos roedores. Hoje, cerca de 50 a 70 gatos vivem oficialmente nos porões do museu, sob um programa de proteção criado nos anos 1990, com cuidadores voluntários responsáveis pela alimentação e pelos cuidados veterinários — e um “agente de imprensa” próprio, que documenta o dia a dia felino em redes sociais oficiais do museu.
Do Estado-Maior General ao impressionismo
Do outro lado da Praça do Palácio, o complexo do Hermitage ganhou em 2014 uma extensão e tanto: o Edifício do Estado-Maior General, antiga sede administrativa do exército imperial russo, reformado para abrigar a coleção de arte impressionista e pós-impressionista do museu, incluindo obras de Monet, Matisse, Picasso e Kandinsky — uma forma de aliviar o Palácio de Inverno e dar mais espaço à arte dos séculos XIX e XX, historicamente represada em salas menores do prédio principal.
Como visitar sem se perder
Para o visitante, a visita ao Hermitage costuma ser tanto um dos pontos altos da viagem quanto um desafio logístico: são mais de 1.000 salas espalhadas pelos seis edifícios, e tentar ver tudo em uma única passagem é, na prática, impossível. A maioria dos roteiros guiados foca nos salões estaduais do Palácio de Inverno — a Sala do Trono, a Galeria de 1812, dedicada aos heróis da guerra contra Napoleão, e a Escadaria Jordan, com seus lances de mármore branco — e em uma seleção das galerias de pintura mais famosas, como a Sala Leonardo da Vinci e a Sala Rembrandt. Vale reservar ao menos três horas para uma visita que não seja apressada, e quem tiver mais tempo disponível pode facilmente passar um dia inteiro no complexo sem repetir uma sala sequer.
Os ingressos podem ser comprados online pelo site oficial do museu, o que evita boa parte da fila que costuma se formar na Praça do Palácio, sobretudo na alta temporada de verão. O museu fecha às segundas-feiras, e a fotografia é permitida na maior parte das salas mediante uma taxa adicional, embora o uso de flash e tripé costume ser restrito para proteger as obras mais sensíveis. Guias em português não são tão comuns quanto em inglês ou russo, então vale considerar contratar um audioguia ou reservar um tour especializado com antecedência.
Depois da visita, a própria Praça do Palácio, com a Coluna de Alexandre erguida em homenagem à vitória russa sobre Napoleão, e o Jardim Alexandre, logo ali ao lado, completam naturalmente o roteiro por essa região — todos a poucos minutos a pé da Catedral de Santo Isaac e do Almirantado.
Texto e fotos por: Guillermo Bastos Oliva – O jornalista viajou a convite do Comitê de Turismo de São Petersburgo.






