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Catedral de Santo Isaac: a cúpula dourada que levou 40 anos para ficar pronta

21 de setembro de 2026

Vista de quase qualquer ponto do centro histórico, a cúpula dourada da Catedral de Santo Isaac é, ao lado do Almirantado, o marco visual mais reconhecível de São Petersburgo. Erguida bem no meio do trajeto entre o Jardim Alexandre e a Praça do Palácio, a catedral concentra em si praticamente todos os superlativos possíveis: é um dos maiores templos de cúpula do mundo, levou quarenta anos para ficar pronta e foi projetada por um arquiteto que, tecnicamente, nem era arquiteto.

Quatro igrejas num mesmo terreno

A história do local começa muito antes da construção atual. Esta é a quarta igreja erguida no mesmo terreno em homenagem a Santo Isaac de Dalmácia, monge do século IV cujo dia de festa, 30 de maio no calendário juliano, coincide com o aniversário de Pedro, o Grande — motivo mais do que suficiente para o czar fundador da cidade escolher esse santo como padroeiro de sua nova capital. A primeira capela, de madeira, foi consagrada ainda em 1710, poucos anos depois da fundação de São Petersburgo, e foi ali que o próprio Pedro se casou com Catarina. Um incêndio destruiu a segunda versão, em pedra, em 1735; a terceira, construída sob Catarina a Grande e concluída sob Paulo I, já não agradava mais aos padrões de grandiosidade da corte.

Um arquiteto que não era arquiteto

Foi Alexandre I quem, em 1809, abriu um concurso para erguer uma quarta e definitiva catedral no local, com a única exigência de preservar os três altares já consagrados da versão anterior. Para surpresa da comissão avaliadora, o escolhido foi um jovem francês recém-chegado à Rússia, Auguste de Montferrand, que sequer possuía formação formal em arquitetura — o que gerou desconfiança entre os membros da comissão, preocupados que o projeto não fosse grandioso o suficiente para uma capital imperial. O imperador, no entanto, manteve o apoio a Montferrand, e as obras começaram em 1818.

Elas se estenderiam por quatro décadas, até a consagração final em 30 de maio de 1858. O prazo virou até expressão popular: em finlandês, “construir como a igreja de Isaac” passou a significar uma obra que nunca termina. Parte do atraso veio da ousadia da própria engenharia: para erguer as 112 colunas de granito vermelho maciço que sustentam os quatro pórticos externos — cada uma esculpida de uma única pedra e transportada inteira desde as pedreiras da Finlândia —, foram desenvolvidos métodos e andaimes inéditos para a época, incluindo o trabalho do engenheiro espanhol Agustín de Betancourt.

Uma decoração feita de quarenta minerais diferentes

O resultado é um templo de proporções quase difíceis de assimilar de perto: 101,5 metros de altura, 111 metros de comprimento e mais de 4 mil metros quadrados de área interna, com capacidade histórica para milhares de fiéis simultaneamente. A cúpula central, com 21,8 metros de diâmetro, recebeu mais de 100 quilos de folhas de ouro em sua cobertura, e é decorada por estátuas de anjos esculpidas por Josef Hermann. No friso do pórtico oeste, um baixo-relevo de Ivan Vitali retrata o encontro de Santo Isaac com o imperador Teodósio — mas o escultor, numa homenagem discreta, moldou o rosto do imperador romano com os traços do próprio Alexandre I, e o de sua esposa Flácila com os da czarina Elizaveta Alexeievna.

Por dentro, a decoração usa mais de quarenta tipos diferentes de minerais: granito na base, mármores russos, italianos e franceses nos pisos e paredes, e colunas de malacaquita verde e lápis-lazúli azul ladeando o iconostase. Ao todo, o interior reúne mais de 400 obras entre esculturas, pinturas e mosaicos, incluindo cerca de sessenta painéis em mosaico produzidos entre 1851 e 1914 para substituir afrescos que se deterioravam com a umidade do clima local — uma técnica tão minuciosa que, de longe, é quase impossível distinguir os mosaicos das pinturas originais que substituíram.

De templo a museu do ateísmo, e de volta

A vida do edifício mudou drasticamente após a Revolução de 1917. O governo soviético confiscou a catedral, encerrou seu uso religioso e, em 1931, transformou o espaço no Museu da História da Religião e do Ateísmo — chegando a instalar um pêndulo de Foucault sob a cúpula para demonstrar, na prática, a rotação da Terra como argumento contra o dogma religioso. Em 1937 o museu foi reformulado para focar na própria história arquitetônica do edifício. Durante o cerco nazista de Leningrado, na Segunda Guerra Mundial, a cúpula dourada foi pintada de cinza para não servir de referência visual à artilharia inimiga, e o porão do templo chegou a abrigar parte do acervo do Hermitage, protegido dos bombardeios.

Foto por Guillermo Bastos Oliva

Hoje, a Catedral de Santo Isaac funciona como museu estatal, com cultos religiosos ocasionais realizados ao longo do ano — um equilíbrio que já rendeu debates políticos: em 2017, o governo de São Petersburgo chegou a propor a devolução integral do templo à Igreja Ortodoxa Russa, decisão que gerou protestos e acabou não avançando. O prédio integra a lista de Patrimônio Mundial da Unesco como parte do centro histórico da cidade.

A colonata: a melhor vista de São Petersburgo

Para o visitante, porém, a experiência mais memorável costuma estar do lado de fora e para cima: a colonata, um passadiço estreito que circunda o tambor da cúpula a 43 metros de altura, acessível por uma escadaria interna de pouco mais de duzentos degraus. Lá em cima, a recompensa é uma vista de 360 graus sobre o centro histórico inteiro — o Jardim Alexandre e o Almirantado de um lado, o rio Nevá e a Fortaleza de Pedro e Paulo do outro, e os telhados dourados e verdes da cidade se estendendo até o horizonte. Nos meses de Noites Brancas, entre junho e agosto, a colonata funciona também durante a madrugada, permitindo ver o nascer do sol sobre a cidade sem que o céu jamais escureça de verdade.

A visita completa — catedral e colonata — costuma levar de uma a duas horas, e vale reservar fôlego extra para a escadaria: são degraus estreitos e em espiral, sem elevador, então não é a melhor opção para quem tem dificuldade de locomoção. Os ingressos podem ser comprados separadamente para o interior do templo e para a colonata, ou como bilhete combinado, diretamente na bilheteria ou pelo site oficial da catedral. Os preços costumam girar em torno de 250 rublos para o interior da catedral e 150 rublos para a colonata isoladamente, com um combinado por cerca de 400 rublos — valores bem mais em conta do que os grandes museus da cidade. Vale verificar os horários com antecedência: o museu fecha às quartas-feiras, funciona das 10h30 às 18h no restante da semana, e no verão, entre 1º de maio e 30 de setembro, abre também em horário noturno estendido, das 18h às 22h30, com a colonata operando até de madrugada durante as Noites Brancas.

Quem chega em grupo ou prefere não enfrentar fila costuma reservar horário fixo com antecedência pelo site; já quem viaja sozinho ou em casal geralmente consegue comprar na hora fora da alta temporada. Levar um casaco mesmo no verão é uma boa ideia: lá em cima, na colonata, o vento que vem do golfo costuma ser mais forte do que ao nível da rua.

A Catedral de Santo Isaac fica a poucos minutos a pé tanto do Jardim Alexandre quanto do Almirantado, formando com eles um dos trios mais naturais de se visitar em sequência logo na chegada à cidade — e o ponto de partida ideal para seguir depois rumo à Praça do Palácio e ao Hermitage, ou à Praça do Senado, onde está o Cavaleiro de Bronze.

Texto e fotos por Guillermo Bastos Oliva