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Palácio Yusupov: luxo, teatro particular e a noite em que Rasputin foi assassinado

21 de setembro de 2026

Poucos endereços em São Petersburgo concentram tanto luxo e tanta desgraça sob o mesmo teto quanto o Palácio Yusupov, às margens do Moika. É ali, entre salões forrados de seda e um teatro particular digno de qualquer corte europeia, que se desenrolou uma das noites mais sombrias da história russa: o assassinato de Grigori Rasputin, em dezembro de 1916, orquestrado por dentro da própria residência.

Da sobrinha de Pedro, o Grande, à família mais rica da Rússia

O terreno já era nobre antes mesmo de existir palácio: pertenceu a Praskovia Ivanovna, sobrinha de Pedro, o Grande, que ali mantinha uma modesta casa de madeira. Na década de 1770, o arquiteto francês Jean-Baptiste Vallin de la Mothe ergueu no local a estrutura que, com reformas sucessivas, chegaria até hoje. Mas foi só em 1830, quando a propriedade passou às mãos da família Yusupov, que o palácio ganhou os interiores suntuosos que o tornaram famoso. Por cinco gerações, até 1917, os Yusupov ocuparam a residência — uma das famílias mais ricas da Rússia imperial, tão endinheirada que alguns historiadores a consideram mais rica até do que os próprios Romanov.

Salões dourados e um teatro só para convidados

A visita ao palácio começa no segundo andar, onde ficam os ambientes mais formais: o salão de baile das Colunas Brancas, o elegante Salão Verde e um teatro particular em estilo rococó, com direito a camarotes dourados e um teto pintado, digno de qualquer teatro de ópera europeu — só que reservado exclusivamente para os convidados da família. No térreo, o passeio segue pelo Gabinete Turco, que o último príncipe da linhagem, Félix Yusupov, usava como sala de bilhar, e pelo Salão Mourisco, decorado com azulejos, arcos e uma fonte interna que remete à arquitetura andaluza — um capricho orientalista comum entre a aristocracia europeia da época.

A noite em que Rasputin foi assassinado

É no porão do palácio, porém, que a visita muda de tom. Foi ali, na madrugada de 17 de dezembro de 1916, que Félix Yusupov e um grupo de conspiradores monarquistas — entre eles o grão-duque Dmitri Pavlovich, primo do czar Nicolau II — atraíram Grigori Rasputin, o influente e controverso conselheiro místico da família imperial, sob o pretexto de uma festa. O plano era eliminar a influência que Rasputin exercia sobre a czarina Alexandra, e por consequência sobre as decisões do próprio czar, num momento de crescente instabilidade política às vésperas da Revolução. Segundo os relatos mais difundidos — ainda hoje cercados de lendas e versões contraditórias —, Rasputin foi envenenado, baleado múltiplas vezes, espancado e, por fim, jogado nas águas geladas do rio Nevá, onde teria finalmente morrido afogado.

Desde 1919, o próprio porão onde o crime começou abriga uma exposição permanente com figuras de cera que recriam a cena, incluindo Rasputin e seus assassinos, além de fotografias e documentos de época — um dos programas mais procurados do museu, ainda que a entrada para essa ala específica costume ser vendida à parte do ingresso geral, geralmente dentro de um tour guiado de cerca de noventa minutos, com vagas limitadas por dia.

Marcas da Segunda Guerra e o palácio hoje

A Segunda Guerra Mundial deixou marcas físicas no palácio: durante o cerco de Leningrado, o edifício funcionou como hospital de evacuação, com camas e fogões instalados nos salões nobres, cuja fuligem chegou a manchar paredes e pisos originais. Em 1941, bombas atingiram diretamente a estrutura, destruindo parte do telhado, do Salão Verde e da biblioteca, além de explodir no porão — mesmo cômodo que, décadas antes, havia sido palco do assassinato mais famoso da casa.

Hoje restaurado, o Palácio Yusupov funciona como museu e também recebe concertos de música clássica e apresentações de teatro em seu salão rococó. Fica a poucos minutos a pé tanto da Catedral de Santo Isaac quanto do Jardim Alexandre, na margem do Moika, e pode ser alcançado pelas estações de metrô Admiralteyskaya ou Sennaya Ploshchad. Audioguias estão disponíveis em vários idiomas, incluindo inglês, e o museu funciona diariamente, geralmente das 11h às 17h — vale confirmar horários especiais quando a exposição sobre o assassinato de Rasputin estiver incluída no roteiro do dia.

Texto e fotos por Guillermo Bastos Oliva