Todo roteiro de chegada a São Petersburgo pede um jantar de boas-vindas à altura, e poucos endereços cumprem esse papel com tanta personalidade quanto o Shalyapin, na Tverskaya, a poucos passos da Catedral de Smolny e do Jardim Tauride. O nome não é escolhido à toa: é uma homenagem a Feodor Chaliapin, o baixo mais famoso que a Rússia já produziu e uma das vozes que definiram a ópera mundial no início do século XX.
Quem foi Feodor Chaliapin
Chaliapin nasceu em 1873 numa família pobre de Kazan e construiu sozinho uma carreira que o levou aos palcos do Teatro Mariinsky, do Bolshoi, da Scala de Milão, da Ópera de Paris e do Metropolitan de Nova York. Mais do que a potência vocal, o que o tornou lendário foi ter sido um dos primeiros grandes cantores a tratar a atuação com tanto peso quanto o canto — seu Boris Godunov, papel-título da ópera de Mussorgsky, é até hoje referência para baixos do mundo inteiro. Chaliapin deixou a Rússia soviética em 1922 e, em 1927, teve o título de Artista do Povo cassado pelo regime, sob a acusação de simpatizar com os emigrados russos contrários à revolução — um título que só lhe foi devolvido postumamente, em 1991. Curiosamente, sabe-se com detalhes o que o cantor gostava de comer: seu cozinheiro pessoal, Nikolai Khvostov, manteve por oito anos um caderno de receitas com os pratos favoritos do artista, hoje um documento histórico consultado por chefs que ainda preparam cardápios inspirados nele.

Um apartamento russo do início do século XX
É esse universo — o de um artista que viveu como estrela internacional sem nunca abrir mão da mesa russa — que o restaurante tenta recriar. O espaço é dividido em três salas decoradas como um apartamento burguês do início do século XX, com móveis, luminárias e detalhes que remetem à Rússia pré-revolucionária, criando uma atmosfera bem mais intimista do que a de um restaurante de hotel. O cardápio segue a mesma lógica: cozinha russo-europeia contemporânea, com força total na identidade culinária local, do bœuf Stroganoff às sopas tradicionais como shchi e aos immancáveis blinis e pirozhki, pequenos pastéis assados recheados que vão do clássico repolho refogado ao ovo com cebolinha.
O Shalyapin já colecionou reconhecimento por isso: aparece na lista dos 50 melhores restaurantes da região Noroeste da Rússia (WHERETOEAT NW 2025) e levou prêmios recentes como o Great Menu e o Russian Trend, ambos de 2025. Na prática, é o tipo de lugar pensado tanto para turistas em busca de uma primeira imersão na cozinha russa quanto para petersburguenses que escolhem ali um jantar de ocasião — a poucos minutos a pé de outro ponto de interesse pouco óbvio para quem já visitou os clássicos da cidade: o Jardim Tauride, um dos parques mais bonitos e menos turísticos do centro histórico.
Texto e fotos por: Guillermo Bastos Oliva – O jornalista viajou a convite do Comitê de Turismo de São Petersburgo.
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