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Peterhof: o palácio de Pedro, o Grande, e as fontes que funcionam sem uma única bomba

Claudia Costa 23 de setembro de 2026

Chegar a Peterhof de hidrofólio já é, em si, parte do espetáculo: a meia hora de travessia pelo Golfo da Finlândia entrega, aos poucos, a primeira visão do complexo que Pedro, o Grande, construiu para ombrear — e, na cabeça dele, superar — o próprio Palácio de Versalhes. Não é força de expressão: o czar viu de perto os jardins franceses durante suas viagens diplomáticas pela Europa e voltou decidido a erguer algo equivalente às margens do golfo, a pouco mais de 30 quilômetros de sua nova capital.

O Versalhes que Pedro, o Grande, sonhou superar

A história do lugar começa em 1704, quando Pedro construiu ali uma simples casa de madeira enquanto supervisionava a construção da fortaleza de Kronstadt, na ilha vizinha. Foi só a partir de 1713 que a área começou a se transformar de fato numa residência imperial, com o Grande Palácio inaugurado em 1723 e ampliado décadas depois pela imperatriz Elizabeth, filha do próprio Pedro. Curiosamente, o czar preferia passar o tempo não no Grande Palácio, mas no Monplaisir, uma construção bem mais modesta e intimista à beira-mar, com vista direta para o golfo — prova de que até imperadores têm seus cantos favoritos longe da formalidade oficial. Ao lado do Monplaisir, o Pavilhão Hermitage guarda um capricho digno de nota: uma mesa de jantar equipada com um sistema de elevação mecânica, que descia até a cozinha no andar de baixo para ser recarregada, permitindo que os convidados comessem sem a presença de criados na sala — um luxo de privacidade e discrição raro para a época.

Mas o verdadeiro cartão de visitas de Peterhof, aquele que faz qualquer visitante parar de andar assim que cruza o Grande Palácio, é o sistema de fontes. Ao todo, o complexo reúne mais de 150 fontes espalhadas entre o Jardim Superior e o Jardim Inferior, com a Grande Cascata concentrando 64 delas na base do palácio, de onde a água escoa para o Canal do Mar, um corredor aquático que corta o jardim até o golfo. No centro da bacia que recebe essa cascata está a Fonte de Sansão, instalada nos anos 1730 para comemorar a vitória russa sobre a Suécia na Grande Guerra do Norte: a escultura retrata o herói bíblico abrindo as mandíbulas de um leão — símbolo tanto do brasão sueco quanto da data em que a decisiva Batalha de Poltava foi vencida, no dia de São Sansão.

Um sistema de fontes que desafia a lógica

O detalhe mais impressionante, porém, é invisível a olho nu: nenhuma das fontes de Peterhof usa bombas mecânicas. Todo o sistema funciona por gravidade pura, graças a um projeto hidráulico desenvolvido ainda no século XVIII pelo engenheiro russo Vasily Tuvolkov, que construiu represas, comportas, lagos de reserva e um canal de mais de 20 quilômetros trazendo água de nascentes situadas num ponto mais alto do terreno, em Ropsha. A diferença de altitude entre essas fontes e o parque cria, sozinha, toda a pressão necessária para que a água jorre décadas — e séculos — depois, sem gastar uma gota de eletricidade.

Gravidade pura: o segredo por trás das fontes

Pedro também tinha um lado brincalhão pouco condizente com a imagem de estadista sisudo: ele próprio ajudou a projetar as chamadas “fontes-armadilha”, como os bancos que, ao serem pisados por quem se aproximava, disparavam jatos de água sobre visitantes desavisados — uma pegadinha que, segundo relatos da época, divertia bastante o czar às custas de nobres visitantes elegantemente vestidos.

As pegadinhas do czar

A Segunda Guerra Mundial não poupou Peterhof: a ocupação nazista destruiu boa parte dos jardins e edifícios, e muitas esculturas do complexo só sobreviveram porque foram enterradas às pressas pela equipe do museu antes da chegada das tropas alemãs — como aconteceu com as estátuas da Cascata da Colina do Dragão. A reconstrução começou quase imediatamente após o fim da guerra e se estendeu por décadas, num trabalho de restauração hoje reconhecido pela Unesco, que incluiu o complexo em sua lista de Patrimônio Mundial.

Guerra, destruição e reconstrução

As fontes de Peterhof funcionam apenas na temporada quente, geralmente de maio a outubro, então quem visita no inverno encontra os jardins bem mais silenciosos — bonitos à sua maneira, mas sem o espetáculo aquático que faz a fama do lugar. Para quem vai no verão, vale reservar ao menos meio dia: o suficiente para caminhar pelo Jardim Inferior, ver a Grande Cascata de perto, visitar o interior dourado do Grande Palácio e, se sobrar tempo, espiar o Monplaisir à beira do golfo antes de voltar de hidrofólio para São Petersburgo.

Texto e fotos por: Guillermo Bastos Oliva – O jornalista viajou a convite do Comitê de Turismo de São Petersburgo.