Mostra inédita propõe uma leitura iconográfica e histórica dos mapas, evidenciando a transformação do imaginário europeu sobre o Brasil entre ciência, arte e fantasia.
O Farol Santander São Paulo inaugura, em 24 de abril (sexta-feira), a exposição A Invenção do Novo Mundo: Mapas da Coleção Santander, uma ampla e inédita mostra que reúne um conjunto expressivo de obras cartográficas dos séculos XVI, XVII e XVIII, período conhecido como a era de ouro da cartografia ocidental. Com curadoria de Helena Severo e Maria Eduarda Marques, organização da Oficina de Arte e produção da AYO Cultural, a exposição ocupa a galeria do andar 24 do icônico edifício e apresenta ao público uma rara oportunidade de percorrer a formação do imaginário sobre o território brasileiro por meio de mapas históricos. A mostra, apresentada pelo Ministério da Cultura via Lei Rouanet e com patrocínio do Santander Brasil, fica em exibição até o dia 26 de julho de 2026.
O recorte da curadoria tem como eixo central o relevante acervo da Coleção Santander Brasil. Ao todo, são mais de 50 trabalhos — entre mapas, cartas náuticas, vistas e planisférios — que evidenciam a riqueza documental, estética e simbólica da cartografia produzida ao longo de três séculos.
“No Santander, acreditamos que preservar e compartilhar a cultura é ampliar o acesso ao conhecimento e às diferentes formas de compreender a história. Ao compartilhar este acervo, reafirmamos nosso papel como guardião de bens culturais e como ponte entre história, conhecimento e sociedade”, ressalta Bibiana Berg, head Sênior de Experiências, Cultura e Impacto Social e Presidente do Santander Cultural.
O percurso expositivo está organizado de forma cronológica e propõe um recorte curatorial centrado na iconografia dos mapas — elemento fundamental para compreender não apenas a evolução técnica da cartografia, mas também as visões de mundo que moldaram essas representações.
Logo na entrada, o público é recebido por uma projeção de um mapa pertencente ao acervo da Biblioteca Nacional, que antecipa a dimensão histórica e visual da exposição. Ao longo do percurso, elementos expográficos ampliam essa experiência, como cortinas estampadas e uma tapeçaria que reforça o caráter imersivo da mostra.
A exposição reúne obras de alguns dos principais nomes da cartografia ocidental, evidenciando diferentes momentos e abordagens na representação do território brasileiro. Entre eles, destaca-se Joan Blaeu, um dos expoentes da cartografia holandesa e figura central na chamada era de ouro da produção cartográfica europeia, cujos mapas combinam rigor científico e riqueza ornamental. Outro nome fundamental é Nicolas Sanson d’Abeville, considerado o pai da cartografia francesa moderna, responsável por consolidar uma linguagem mais racional e politicamente orientada na representação dos territórios.
No contexto da produção ligada ao Brasil holandês, ganha destaque Matthäus Merian, cujas imagens detalhadas de cidades e paisagens brasileiras contribuíram para ampliar o conhecimento visual sobre o território. Já no século XVIII, a presença de Guillaume de l’Isle marca a incorporação de métodos científicos mais rigorosos à cartografia, refletindo os avanços do pensamento iluminista. A mostra também dialoga com referências pioneiras como Sebastian Münster, cuja obra sintetiza o momento em que fantasia, religiosidade e imaginação ainda moldavam as representações do chamado Novo Mundo.
Outro aspecto que se destaca na exposição é a presença recorrente de referências geográficas explícitas nos títulos das obras, que evidenciam o avanço do conhecimento europeu sobre o território ao longo dos séculos. Mapas como “Carta particolare dell’ rio d’Amazone con la costa sin al fiume Maranhan” (1661), de Robert Dudley, “Paskaart van Brasil van Rio de los Amazones tot Rio de la Plata” (1666), de Pieter Goos, e “Kaart van der Aller-Heiligen Baay Waar aan de Hoofdstadt legt van Brazil” (séc. XVIII), de Izaak Tirion, revelam a importância dos grandes cursos d’água e do litoral na construção dessas representações. Também aparecem recortes mais específicos, como em “Provincia di Seará” (1698), de João José de Santa Tereza e Andrea Antonio Orazi, e em vistas e registros de cidades como Olinda e Paraíba, presentes nas obras de Matthäus Merian.
Essas denominações indicam uma mudança significativa na cartografia produzida sobre o Brasil. Se nos primeiros mapas, especialmente do século XVI, predominavam imagens marcadas pelo imaginário e por referências genéricas ao território, ao longo do século XVII e, sobretudo, no século XVIII, observa-se um esforço crescente de identificação e nomeação precisa de regiões, rios, capitanias e cidades. Esse movimento acompanha o avanço das navegações, o aprofundamento das disputas geopolíticas e a necessidade de domínio territorial, refletindo a transição de uma cartografia mais simbólica para uma representação cada vez mais instrumental e científica.
Os mapas do século XVI revelam um território ainda envolto em mistério e fantasia. Neles, é possível observar a presença de criaturas míticas, monstros marinhos e cenas que misturam relatos de viajantes com tradições medievais, compondo uma visão imaginada e, muitas vezes, exótica do Brasil. A iconografia inclui representações da fauna, da flora e dos povos originários, além de registros de práticas que despertavam o olhar europeu, como o corte do pau-brasil e rituais considerados “selvagens”.
“Mais do que instrumentos de localização, os mapas apresentados na exposição podem ser compreendidos como construções simbólicas, nas quais estão inscritas as formas de ver e imaginar o mundo naquele período. Eles revelam sensibilidades, crenças e até fantasias que acompanharam a descoberta do chamado Novo Mundo”, afirma Helena Severo.
Já no século XVII, a cartografia passa a refletir maior rigor científico, acompanhando o avanço das navegações e o aprofundamento do conhecimento sobre o território. Esse período é marcado pela intensa produção cartográfica nos Países Baixos, que se tornaram um dos principais centros de impressão da Europa.
A presença holandesa no Brasil impulsionou a criação de mapas mais detalhados e ricos em informações visuais, especialmente durante o governo de Maurício de Nassau, quando artistas e cientistas produziram registros in loco da paisagem, da fauna, da flora e dos aspectos sociais e econômicos da colônia.
No século XVIII, sob a influência do pensamento iluminista, os mapas assumem um caráter ainda mais técnico e preciso. A cartografia passa a incorporar conhecimentos científicos de áreas como astronomia e geodésia, resultando em representações mais sóbrias e voltadas à definição de fronteiras e à gestão territorial.
“Ao longo dos três séculos abordados, é possível perceber uma transformação profunda: saímos de uma cartografia marcada pelo imaginário e pelo encantamento para representações cada vez mais precisas e científicas, acompanhando as mudanças no pensamento europeu”, destaca Maria Eduarda Marques.
Ao evidenciar a transformação dessas representações ao longo do tempo, a exposição A Invenção do Novo Mundo: Mapas da Coleção Santander propõe uma leitura sensível e histórica da cartografia, destacando sua dimensão artística, científica, filosófica e cultural.
Serviço
Exposição A Invenção do Novo Mundo: Mapas da Coleção Santander
Local: Farol Santander
Endereço: Rua João Brícola, 24 – Centro, São Paulo
Período: 24 de abril de 2026 a 26 de julho de 2026
Horário de Visitação: terça a domingo / 09h às 20h
Ingressos: R$ 45,00 (inteira) / R$ 22,50 (meia)
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Classificação Indicativa: Livre
Fotos por divulgação
Texto por agência com edição de Rebeca Dias
