Hoje um dos destinos turísticos mais procurados de Minas Gerais, o Santuário do Caraça, na Serra do Espinhaço, entre os municípios de Catas Altas e Santa Bárbara, guarda uma história que remonta a um tempo em que o local não era apenas um refúgio de natureza e espiritualidade, mas um dos colégios mais célebres do Brasil.
Foi nesse cenário que, em abril de 1881, o Imperador Dom Pedro II desceu a serra acompanhado da imperatriz Teresa Cristina e encontrou um lugar que o marcaria para sempre. A tradição preservada atribui ao imperador a célebre frase: “Só o Caraça paga toda a viagem a Minas.
A passagem imperial, que completou 145 anos em 2026, deixou um legado que o Santuário preserva até hoje no Museu do antigo Colégio do Caraça: o quarto e a cama onde o imperador e a imperatriz dormiram e o belíssimo vitral francês que Dom Pedro mandou encomendar da França para presentear a Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, cuja construção estava terminando. A peça, que representa o Menino Jesus no Templo entre os doutores e traz gravada a Coroa Imperial com o escudo do Império, permanece na igreja até hoje como prova concreta do encantamento do monarca.

Foto por PBCM
A visita ao Caraça não foi um episódio isolado, mas parte de uma das mais célebres viagens do imperador à então Província de Minas Gerais, em 1881, quando percorreu por cerca de 36 dias dezenas de cidades. Saindo da Estação de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, na manhã de 26 de março, Dom Pedro viajou de trem até Barbacena e seguiu a cavalo pelo interior de Minas, com a imperatriz em liteira, anotando em seu diário tudo o que via. Ao subir a serra, registrou: “Desde que se começa a subir a Serra do Caraça, cresce a beleza da paisagem e do alto descobre-se vastíssimo horizonte e depois uma das mais belas cascatas que eu conheço.”
A comitiva imperial chegou ao Colégio em 11 de abril de 1881, recebida por cerca de 300 alunos, professores e pelo Superior da casa, e a rotina do imperador no local foi intensa e reveladora de seu caráter curioso e incansável. Na manhã seguinte, acordou às 6h e foi tomar banho no rio, no local que até hoje carrega o nome de Banho do Imperador; depois assistiu à missa, sob um dossel, acompanhada por cânticos ao som de harmônio e rabeca; e visitou a biblioteca, onde se encantou com os livros raros.
A tradição oral, repetida de geração em geração, conta que, ao deixar o Caraça na madrugada de 13 de abril de 1881, Dom Pedro teria escorregado na Ladeira das Sampaias, caindo de costas sobre uma pedra que foi datada e demarcada, tornando-se a atração conhecida como Pedra do Tombo de Dom Pedro II. O que pode ser comprovado, no entanto, é o encantamento do imperador, registrado em seu diário e eternizado na frase que o próprio Santuário mantém viva para quem o visita.
“A visita de Dom Pedro II em 1881 é um dos capítulos mais marcantes da história do Santuário do Caraça. O imperador se encantou com a beleza natural da serra e reconheceu o valor do trabalho educacional e espiritual que se desenvolvia aqui há mais de um século. Preservar esse legado — o quarto, a cama, o vitral, o retrato e até a lendária Pedra do Tombo — é manter viva a memória de um Brasil que se construiu também dentro destas paredes. Convidamos todos a virem conhecer de perto essa história que atravessa gerações e que, como disse o próprio imperador, ‘só o Caraça paga a viagem'”, afirma o Padre Adalberto Costa, diretor administrativo do Santuário do Caraça.
Quem visita o Santuário do Caraça hoje tem a oportunidade rara de refazer os passos do imperador e vivenciar de perto essa história que atravessa 145 anos. “Sugiro começar o roteiro pelo Museu do antigo Colégio do Caraça, onde estão preservados o quarto e a cama em que Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina teriam dormido nas noites de 11 e 12 de abril de 1881; depois, seguir pela Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, a primeira igreja neogótica do Brasil, onde o imperador assistiu à missa sob um dossel e onde permanece até hoje o vitral francês que ele mesmo mandou encomendar para presentear a casa.
O turista pode descer poucos metros até o Banho do Imperador, no Ribeirão Caraça, o local onde, segundo seu próprio diário, Sua Majestade se banhou nas águas geladas; é interessante se estender pelas trilhas que ele percorreu, como a subida ao Monte Calvário, de onde se descortina a vista que o fez escrever que “nunca admirou lugar mais grandiosamente pitoresco”, passando pela Cascatona, a cachoeira de 80 metros de queda que registrou como uma das mais belas que conhecia.
Para fechar o passeio, o visitante ainda pode descer a Ladeira das Sampaias, onde a tradição conta que o imperador escorregou e caiu de costas sobre uma pedra, hoje datada e demarcada como a Pedra do Tombo de Dom Pedro II, mais uma parada obrigatória nessa verdadeira viagem no tempo pelos caminhos do Caraça”, completa o Padre Adalberto Costa.
Texto por: Agência com edição Eliria Buso
Foto destaque por: Miguel Andrade
