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Próxima temporada de ski deve registrar recorde de turistas brasileiros

17 de junho de 2026

Brasil supera a França no Club Med, dispara em Bariloche, ocupa o Top 3 em Aspen. O salto de 2026/27 tem motor próprio: uma nova camada de alta renda, formada longe de onde o luxo sempre morou, que se mede no que vive e pôs a neve na conta. Então, nos Alpes, fale português: vão te responder, e você vai se sentir em casa, queira ou não.

 

Em 2025, vi neve pela primeira vez no Alasca, de tênis e sem casaco, numa viagem de gente do turismo que devia saber se vestir para a montanha e não sabia. Liguei para cinco pessoas só para mostrar aquilo pelo telefone. Ninguém atendeu, e voltei obcecado. No inverno seguinte já estava em Mendoza, no famtrip do Fernando Musauer, depois de semanas de aula de skate para aguentar a descida. Foi em LAAX que a obsessão virou projeto: a estação mais receptiva que já pisei, com gente atenta por perto, o Claude Bravi e o próprio Fernando, onde aprendo a esquiar com confiança, a falar de neve com propriedade e a transformar o gosto em trabalho. O retorno a LAAX segue sendo tramado nas DMs; antes dele, Cerro Bayo, com a família inteira contagiada pela minha empolgação. Em pouco mais de um ano, saí de quem nunca tinha calçado uma bota para quem conta as semanas até a neve. A curva que os números a seguir medem no mercado, eu vivi antes de saber que era curva.

 

O Brasil ultrapassou a França nas vendas globais de pacotes de neve do Club Med em 2025, pela primeira vez na história da rede. A semana de early booking de março faturou R$ 360 milhões, alta superior a 50% sobre a mesma campanha de 2024, com mais de 20 mil reservas. No ano, a rede levou cerca de 32 mil brasileiros à neve. Quem vende neve no Brasil não levou susto com esse número. Ele põe em planilha o que já estava na fila do teleférico e na agenda das operadoras há pelo menos três temporadas.

 

Há três camadas de demanda. Na base, Andes como porta de entrada: o Chile recebeu 787 mil brasileiros em 2024, seu segundo maior mercado emissor internacional, e Bariloche somou 54,9 mil entre junho e setembro de 2025, com projeção de 65 mil para o inverno seguinte. No meio, os Alpes de ticket alto: o Club Med chegou à liderança global do segmento neve em receita, Courchevel registrou cerca de 82 mil estadias de brasileiros na temporada 24/25, mantendo o Brasil entre os quatro principais mercados emissores do destino, ao lado de Reino Unido, Estados Unidos e Emirados Árabes, e a Suíça fechou 2024 com mais de 330 mil pernoites brasileiros, alta de 21% sobre 2023 e 40% acima de 2019. No topo, o destino como assinatura: Aspen aparece como Top 3 internacional pelas próprias informações da estação, com brasileiros disputando paridade com mercados consolidados.

 

A leitura dos três níveis em conjunto desfaz a hipótese de pico isolado: o que se vê é uma categoria inteira se consolidando por faixa de público.

 

O motor é a renda, e ela não dá sinal de cansaço no topo. A Bain & Company mediu o mercado de luxo brasileiro em R$ 98 bilhões em 2024, com crescimento acumulado de 26% entre 2022 e 2024 contra 3% global, e o segmento Hotéis e Experiências cresceu 16%, acima da média do setor. Globalmente, a rede de agências de luxo Virtuoso reportou faturamento 25% maior em 2024 sobre 2023 e mais de 200% sobre 2019, o pano de fundo internacional do apetite. No recorte brasileiro, a Visa Consulting & Analytics registrou alta de 20% nas transações de cartões Visa Infinite emitidos no país em destinos de neve em 2025 ante 2024, com variações de 23% nos Alpes Suíços, 22% em Ushuaia, 20% em Valle Nevado e 12% em Bariloche.

 

A capilarização do consumo é parte do que o número agregado esconde. Na ExpoSKI 2025, que reuniu 85 montanhas de oito países em sua sexta edição, 40% das agências participantes vieram de fora de São Paulo, e o evento gerou cerca de 1.800 reuniões B2B em setembro. Brasil cresceu 140% nas estações francesas entre 2019 e 2025 e 57% nos Alpes franceses no mesmo período, esse segundo número filtrado para excluir brasileiros com passaporte europeu. O Club Med anunciou ampliação de funcionários brasileiros nos hotéis dos Alpes de cerca de 10 para 75 até o fim de 2026, sinal de adaptação operacional ao perfil do consumidor.

 

A camada cultural acompanha. No varejo de moda, marcas de inverno aceleraram: a The North Face teria crescido na casa dos 40% em 2024, pelas contas do setor. A Shop2gether ampliou em 150% o portfólio focado no inverno europeu. A NV, do grupo Azzas 2154, lançou a Voyage Winter Escape, sua primeira cápsula de esqui. A Farm mantém linha de neve recorrente desde 2022. Na Faria Lima, abriu a Born to Ski, escola de simulador a R$ 350 a aula. Esses casos medem a profundidade da absorção: a neve já é inventário de varejo de moda, vendida na vitrine como mais uma estação do ano.

 

Alguns fatores modulam a curva sem sustentá-la. A vantagem cambial argentina sustentou Bariloche entre 2022 e 2023 e desapareceu em termos reais a partir do fim de 2024, sob Milei, deslocando o cliente marginal para o Chile. O revenge travel pós-pandemia, distinto deste ciclo, já estava normalizado em 2024, e 2025 entrou em base mais fraca de crescimento global, segundo o Skift Travel Health Index. Os Jogos de inverno somaram visibilidade e ruído no início do ano; saíram do noticiário em fevereiro, e a procura não saiu com eles. Quanto daquele pico de atenção virou viagem vendida segue sem leitura em fonte pública.

 

O que vem pela frente dá para desenhar: descoberta em 2026 e 2027, seleção de capacidade aérea e preço em 2027 e 2028, maturação por faixa a partir de 2028. Os riscos têm nome: estabilização do peso argentino devolvendo competitividade ao Chile, contração da malha aérea transatlântica, acomodação do interesse agora que o brilho olímpico passou. O dinheiro que sustenta a curva não secou: o PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025, com Selic em 15% e consumo das famílias desacelerando para 1,3%, mas foi a agropecuária que liderou, com alta de 11,7% e safras recorde de milho e soja. E a renda que banca a neve cresce cada vez mais fora dos grandes centros.

 

Hoje, em qualquer fila de teleférico nos Alpes, alguém fala português a dois metros de você. É gente nova, chegando pelos mesmos motores que movem tudo isso: renda no topo, varejo na base, um comprador que agora vem de fora dos grandes centros. Os holofotes da temporada saem com o degelo. A fila fica, e a maior temporada ainda está à frente.

 

Texto por agência com edição

Fotos por Sandro Ricken – Vagalume Agência Criativa