Assistir a um concerto na Filarmônica Acadêmica de São Petersburgo é sentar-se dentro de uma das salas de concerto mais antigas da Europa e, ao mesmo tempo, num dos palcos que carrega uma das histórias mais dramáticas da música do século XX. O prédio do Grande Salão, na Praça das Artes, foi erguido em 1839 para abrigar a Assembleia da Nobreza de São Petersburgo e ganhou andares extras entre 1899 e 1901, mas a instituição que hoje ocupa o espaço é ainda mais antiga: remonta a 1802, quando foi fundada a Sociedade Filarmônica de São Petersburgo, a primeira do gênero em toda a Europa. Foi ali, no Salão Pequeno — hoje batizado em homenagem a Glinka —, que aconteceram as estreias europeias de “A Criação”, de Haydn, em 1802, e da Missa Solemnis, de Beethoven, em 1824.
A Filarmônica como instituição formal, porém, nasceu em 1921, já sob o nome de Filarmônica de Petrogrado, com um concerto de abertura dedicado inteiramente a Tchaikovsky sob a batuta do maestro Emil Cooper. O nome atual, em homenagem a Dmitri Shostakovich, veio só em 1975, décadas depois de o compositor ter estreado ali sua Primeira Sinfonia, em 1926, ainda estudante quase desconhecido — um gesto de reconhecimento tardio para uma parceria que se tornaria uma das mais importantes da música soviética.

A Sinfonia Leningrado: o concerto que resistiu ao cerco
Nenhum episódio, porém, define tanto a identidade desse teatro quanto o que aconteceu em 9 de agosto de 1942, no auge do cerco nazista a Leningrado. A Orquestra Sinfônica do Rádio de Leningrado, a única orquestra que permaneceu na cidade sitiada, havia praticamente deixado de existir no primeiro inverno da guerra: metade dos músicos morreu de fome ou frio, e os sobreviventes mal tinham forças para segurar seus instrumentos. Ainda assim, sob a regência do maestro Karl Eliasberg, o grupo foi reconstituído às pressas — com músicos convocados de volta da linha de frente e reforços emprestados de outras formações — para estrear ali a Sétima Sinfonia de Shostakovich, conhecida até hoje como “Sinfonia Leningrado”. O concerto foi transmitido por alto-falantes espalhados pela cidade e também apontados para as trincheiras alemãs, num gesto deliberado de resistência cultural em meio ao cerco. É considerado, até hoje, um dos episódios mais simbólicos da história da música do século XX, e o maestro Evgeny Mravinsky, que viria a comandar a orquestra por cinquenta anos seguidos, entre 1938 e 1988, ajudou a consolidar a reputação internacional da casa nas décadas seguintes.
Rachmaninoff e uma noite de concertos para piano
É dentro desse teatro carregado de história que faz todo sentido assistir a uma maratona dedicada a Sergei Rachmaninoff, como a que reúne todos os seus concertos para piano numa única noite. A ligação do compositor com a cidade, aliás, é mais antiga do que se imagina: antes de se mudar para Moscou, onde construiria o grosso de sua carreira, Rachmaninoff começou os estudos musicais justamente no Conservatório de São Petersburgo, ainda criança, entre 1882 e 1885. Seus concertos para piano — em especial o Segundo e o Terceiro, hoje entre as obras mais executadas e mais difíceis do repertório pianístico mundial — combinam melancolia romântica típica do fim do império russo com uma virtuosidade que exige tanto da orquestra quanto do solista, e ouvi-los em sequência, na mesma sala que testemunhou a resistência de Leningrado sob bombardeio, é uma experiência bem diferente de qualquer outra sala de concertos do mundo.
Texto e fotos por: Guillermo Bastos Oliva – O jornalista viajou a convite do Comitê de Turismo de São Petersburgo.
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