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Os tesouros do Vale do Natrun | Qual Viagem Logo

Foto por Pedro Teixeira

Os tesouros do Vale do Natrun

16 de setembro de 2016

Diz o ditado árabe: “ quem planta tâmaras não come tâmaras”. As tamareiras do Vale do Natrun (Wadi el Natrun), no deserto do Egito, levam entre 80 e 100 anos para frutificar. Assim como elas, o evangelista Marcos teria se orgulhado de ver os frutos de seu trabalho, implantado no ano 60 d.C., amadurecer no árido solo egípcio.

O mormaço acompanha os cem quilômetros de asfalto do Cairo até o Vale de Natrun. As tamareiras conduzem o restante da chegada ao complexo de monastérios do século IV. Monges coptas ligados à Igreja ortodoxa mantêm intacto mistérios e tesouros valorizados pelo tempo em seus monastérios. Assim como tamareiras do deserto, São Marcos teria plantado a árvore do cristianismo no Vale do Natrun na década de 40 d.C. Durante séculos, cinquenta dessas edificações cristãs coptas ligadas à Igreja Ortodoxa transformaram a região num grande centro espiritual, atraindo milhares de monges ao isolamento. Mas os frutos diminuíram com o tempo. Quatro mosteiros resistem ao calor intenso do deserto e às duras regras de orações e penitências. Assim como o doce do fruto das tamareiras nas paisagens mais áridas, os frutos dos monastérios evocam o paraíso.

Monastério de Saint Bishoy 

São Bishoy nasceu em 320 d.C., na aldeia de Shansa, no Egito. Seu túmulo é o principal centro de peregrinação do monastério. Dizem que seu corpo está incorrupto. Venerado pelas igrejas Ortodoxas Orientais como “Estrela do deserto”, Saint Bishoy ganhou fama por ter visto Jesus diversas vezes e por seu esforço de se manter ativo nas orações. Conta-se que algumas vezes chegou a amarrar os cabelos numa corda ao teto para se manter acordado e continuar rezando.

Algumas áreas do monastério se mantém fiéis à sua fundação, inclusive o refeitório dos monges, onde uma mesa retangular rente ao chão, de aproximadamente 10 metros de comprimento, serve de apoio para a apresentação de objetos antigos do mosteiro. A imponência da Igreja repleta de cúpulas dispensam esforços para orações.

Monastério Sírio – onde as madeiras falam 

Somente os afrescos requintados e ícones já valeriam a visita ao Monastério Sírio. Mas esse agradável mosteiro, a duzentos metros do de St. Bishoy, também tem em seu quintal a frondosa “Árvore da Obediência” – um tamarindo que teria crescido a partir de uma madeira seca regada durante três anos pelo seu fundador, São João, o Anão. O monge teria recebido a incumbência de seu superior de regar a madeira duas vezes por dia e para isso tinha que 20 quilômetros diariamente para buscar a água. A árvore robusta continua no local protegida por um galpão. Os fiéis jogam moedas aos pés do tronco como forma de ajudar o mosteiro.

Outra preciosidade misteriosa se encontra do lado de dentro do mosteiro: a “Porta de Profecias”, que guarda o altar da pequena igreja. Toda de ébano e marfim, a porta de aproximadamente três metros de largura e 2,75m de altura foi construída, de acordo com inscrições sírias, de 913 a 914 d.C. Na face da estrutura, dividida verticalmente por três folhas de cada lado, sete fileiras horizontais de diagramas simbólicos em forma de cruzes buscam descrever, em cada uma das linhas, os momentos mais importantes da história do cristianismo, tanto no passado, quanto no futuro: a idade de ouro, os períodos de grandes mudanças, as dificuldades e as perseguições. Na porta se vê o símbolo da suástica, provando que o nazismo não o teria criado. No monastério sírio, as madeiras comprovam as histórias.

FOTO: LUMEN ROMA / OBRA DO PRÓPRIO / CC BY-SA 3.0 / COMMONS.WIKIMEDIA.ORG / ID 4233112

FOTO: LUMEN ROMA / OBRA DO PRÓPRIO / CC BY-SA 3.0 / COMMONS.WIKIMEDIA.ORG / ID 4233112

Monastério de São Macário – de São João Batista a Raul Seixas 

No Monastério de São Macário, o monge parecia Raul Seixas. É claro, como bom brasileiro, o comentário surgiria. Mas…

Ao todo, éramos em 15: o grupo de 12 brasileiros, dois seguranças egípcios e o guia turístico. Quando o ônibus chegou ao mosteiro de São Macário, no Vale de Natrun, o monge de baixa estatura, barbas longas, cabelos compridos e óculos redondos já nos aguardava junto ao portão de entrada. Depois de apresentados, seguimos até a grande escadaria que conduz ao pátio. Havia efidícios novos, árvores e claustros do século VI, estes, bem pequenos e úmidos, onde no passado os monges se penitenciavam. É quando se entende bem o sentido da palavra “claustrofobia”. Durante a caminhada, uma brasileira comentou baixinho da semelhança física entre aquele monge egípcio e Raul Seixas. Para a surpresa e o riso de todos, ele abriu os braços como um pássaro e ameaçou correr pelo pátio.

A imagem do monge do deserto, aquela de eremita sisudo e distante das coisas do mundo, se desfez. Estávamos diante de um homem profundamente culto e sintonizado com seu tempo. Uma metamorfose ambulante, diria Raul.

O olhar tranquilo do monge e seu inglês perfeito conduziu todo o grupo a diferentes locais do antigo monastério, fundado em 360 por São Macário – o pai espiritual de mais de quatro mil monges de diferentes nacionalidades que vinham ao mosteiro em busca sentido espiritual. Na restauração da Grande Igreja, em 1969, houve uma grande surpresa: enquanto se construía a cripta de São João Batista, encontraram o corpo de Eliseu, o Profeta, bem abaixo da parede norte da igreja, comprovando assim sua menção em manuscritos do 11º e 16º séculos descobertos na biblioteca do mosteiro, além do que já contava a tradição eclesiástica da Igreja copta.

Os restos mortais do profeta sucessor de Elias estão em um relicário especial, diante do santuário de São João Batista. Dois bons motivos para conhecer, tirar fotos, além de compreender o modo de vida nada convencional desses monges do deserto, tão distantes do mundo ocidental e tão integrados à metamorfose dos novos tempos.

Texto por: Pedro Teixeira

Foto destaque por Pedro Teixeira

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