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Festival Barunga mantém vivo o espírito aborígene na Austrália | Qual Viagem Logo

Foto reprodução facebook.com/BarungaFestival

Festival Barunga mantém vivo o espírito aborígene na Austrália

30 de maio de 2018

“Meu pai do nascer do sol, mas minha mãe uma mulher da água salgada”

No papel, as palavras têm um traço de poesia épica, mas isso seria o oposto do jeito que elas são ditas, até murmuradas, por uma velha do clã Dalabon chamado Queenie. Ela sempre está rodeada de rostos brancos ansiosos para conhecer algo de seu idioma, os chamados “white fellas” de um festival indígena a quatro horas de Darwin, no Norte.

Celebrado há mais de 30 anos, Barunga é o maior e mais longevo festival comunitário da Austrália e acontece a cada junho. Os ingressos para esse ano já estão à venda no site do próprio evento.

Foto por Duane Preston

Foto por Duane Preston

Segundo brasileiros em intercâmbio na Austrália, o festival é um dos mais falados entre os estudantes das metrópoles do país. “Quando cheguei a Sydney, em janeiro de 2017, os meus colegas nativos só falavam em organizar uma caravana para viajar até a parte Norte do território”, conta Gabriel da Hora, de São Paulo.

O Barunga Festival ganhou popularidade nos anos 1990, mas declinou no início dos anos 2010, chegando a quase ser interrompido em 2012. No ano seguinte, porém, foi revigorado por uma nova administração: a gravadora local Skinny Fish Music.

A empresa também gerencia um dos músicos indígenas mais populares da Austrália, Geoffrey Gurrumul Yunupingu, da Ilha de Elcho. Cego de nascimento, Gurrumul canta em sua língua nativa, Yolngu, e já se apresentou para os membros da ex-banda britânica Queen e para o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

As famílias indígenas se aglomeram nas sombras das árvores assistindo seus filhos jogarem futebol australiano ou uma furiosa competição de basquete jogada sem calçados. Para os nativos, o festival serve para a reunião de diferentes famílias e para que eles se envolvam com matérias importantes. Muitos visitantes brancos, por sua vez, preferem aprender crioulo em uma tenda instalada às margens de um pequeno riacho.

O idioma é falado em todo o território norte da Austrália e é um denominador comum entre as várias tribos que existem – ou existiram – na região. Os 400 mil km² do “fim” do país engloba paisagens como o Parque Nacional Kakadu e o Katherine Gorge e é parte de uma terra inexplorada herdada dos britânicos, que colonizaram o país e, assim como na América Latina, promoveram um massacre de índios. Antes da chegada deles, toda a área era habitada por nações tribais e ancorada em lugares sagrados.

Foto por Istock/ Totajla

Foto por Istock/ Totajla

O fundador do festival, Peter Miller, disse recentemente durante um evento com políticos e patrocinadores do evento, que está preocupado com o futuro. “A Austrália não pode se tornar a nação que nós queremos ser com os povos indígenas ainda sendo deixados para trás”, disse. “Nós ainda estamos esperando pelo acordo que Bob Hawke falou cerca de trinta anos atrás”, completou.

Durante o Barunga Festival de 1988, o ex-primeiro ministro da Austrália, Bob Hawke, prometeu um tratado entre os povos indígenas e o governo da Austrália em nome de toda a nação. À época, os conselhos as regiões indígenas apresentaram a ele um documento em que pediam um sistema nacional de direitos de terra, compensações e reconhecimento da cultura e línguas indígenas. O acordo, porém, nunca foi negociado.

Neil Murray, ex-baixista de bandas como Black Sabbath, Whitesnake e The Brian May Band, que participou do festival em 2015, é um dos principais nomes a favor do reconhecimento proposto em 1988. “Esse país sempre pertenceu aos aborígenes. Eles eram os primeiros. Esses direitos necessitam ser reconhecidos e protegidos”, afirmou à rede australiana ABC.

Foto por Duane Preston

Foto por Duane Preston

O primeiro festival Barunga foi organizado em 1985 por iniciativa de um líder do clã Bagala, Bangardi Lee. A comunidade era conhecida, naquela época, pelo nome Bamyilli, cujos membros ficavam ao redor de Katherine, onde até hoje é celebrado o encontro. Em 1988, foi escrito o Barunga Statement que pedia vários tipos de reconhecimento. Desde então, a cada junho o assunto é levantado por uma série de artistas, líderes e políticos que participam.

Texto por: Agência com edição

Foto destaque: Duane Preston

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