Números foram apresentados no LACTE, principal encontro do setor, realizado pela Alagev; as tendências da economia e do segmento em ano eleitoral, de Copa do Mundo e instabilidade global também foram destacadas

Na manhã desta terça-feira, 24, segundo dia do LACTE, evento promovido pela Associação Latino Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (Alagev), Guilherme Dietze, economista e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, proferiu a palestra “Economia & Viagens Corporativas: O que esperar para 2026” e analisou as principais tendências da economia e do setor em um contexto marcado por ano eleitoral, Copa do Mundo e instabilidade política no cenário internacional.
De acordo com o Levantamento de Viagens Corporativas (LVC), pesquisa realizada pela FecomercioSP em parceria com a Alagev, as viagens corporativas encerraram 2025 com faturamento recorde de R$ 147,8 bilhões, um crescimento de 6,3% em relação ao ano anterior.
Somente em dezembro, os gastos estimados das empresas com transporte aéreo, hospedagem, locação de veículos, alimentação e demais serviços turísticos somaram R$ 9,8 bilhões, alcançando alta de 4% na comparação anual e o melhor resultado para o mês desde o início da série histórica em 2011.
Para 2026, a projeção é de crescimento ainda mais expressivo de cerca de 7%, podendo alcançar R$ 158 bilhões, mesmo diante de um cenário internacional marcado por instabilidade geopolítica, reorganização do fluxo global de capital e mudanças na dinâmica dos ativos de proteção.
Ao contextualizar o cenário global, Dietze destacou a alteração no comportamento dos investidores diante das incertezas internacionais. “Na história temos conflitos, guerras, ou qualquer tipo de instabilidade. É quando as pessoas buscam segurança. Vocês também, quando possuem algum tipo de crise no ambiente, vão lá e levam para algum lugar mais seguro. E o dólar sempre foi esse local que procuraram, considerado um porto seguro”. Mas o cenário atual é diferente.
Segundo ele, dados recentes da Investing mostram mudança importante nesse comportamento. A cotação do ouro saiu de aproximadamente US$ 2.100 em fevereiro de 2024 para US$ 5.300 em fevereiro de 2026, sinalizando que investidores globais estão buscando proteção em ativos reais. Ao mesmo tempo, o índice DXY (U.S. Dollar Index), que mede o dólar frente a uma cesta de moedas fortes, recuou de cerca de 108 para 97 pontos, indicando enfraquecimento relativo do dinheiro americano.
De acordo com o Banco Central (BC), esse movimento global impacta diretamente o Brasil. A cotação do dólar saiu da faixa de R$ 5,80 em 2023 para aproximadamente R$ 5,20, refletindo entrada de capital estrangeiro atraído principalmente pelo diferencial de juros.
A taxa básica de juros no Brasil atingiu 15% ao ano em junho de 2025, após trajetória de aumento iniciada em 2024, quando estava em 10,5%, passando por 10,75%, 11,25%, 12,25%, 13,25%, 14,25% e 14,75% até chegar ao atual patamar. A projeção do estudo indica recuo para 12,25% em dezembro de 2026. Com inflação acumulada em 12 meses na faixa de 4,3 a 4,4%, abaixo do teto da meta de 4,5% estabelecida pelo BC, o Brasil proporciona juros reais elevados, algo raro no cenário internacional atual.
Cenário a favor do Brasil
Para Luana Nogueira, diretora executiva da Alagev, o país passou a ocupar posição estratégica na realocação de capital global. “O mundo vive um momento de reequilíbrio econômico. Investidores estão diversificando suas estratégias de proteção e o Brasil aparece como alternativa relevante por oferecer rentabilidade real elevada, estabilidade institucional e mercado interno ativo. Esse ambiente favorece o crescimento das viagens corporativas”, afirma.
O especialista ainda mencionou que a inflação brasileira, que chegou a níveis próximos de 5,5%, vem desacelerando e converge para o centro da meta. A valorização do real contribui para reduzir o custo de produtos importados, insumos industriais e tecnologia, além de aliviar pressões nas cadeias produtivas influenciadas por commodities como soja e milho.
De acordo com o BC, o Produto Interno Bruto (PIB) pode crescer de 1,8% em 2026 e 2027 e de 2% em 2028 e 2029. Para Dietze não se trata de um crescimento explosivo, mas o cenário afasta risco de recessão e mantém o ambiente de negócios ativo.
Um dos principais vetores que sustentam o dinamismo econômico é o mercado de trabalho. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que a taxa de desemprego caiu para 5,1% em 2025, o menor nível da série histórica recente. Ao mesmo tempo, a massa de rendimentos atingiu R$ 380 bilhões, recorde da série, ampliando a renda disponível e fortalecendo o consumo.
Ao analisar os impactos diretos no setor de viagens e turismo, Dietze afirmou que “o cenário atual mostra dinamismo e apresenta demanda aquecida. Por que ele vai baixar a passagem sem alguém pagando mais?”
Encerrando a palestra, Dietze trouxe informações da Agência Nacional de Aviação Civil, em que o setor aéreo também registrou números históricos em 2025. Foram 129,6 milhões de passageiros transportados, crescimento de 9,4%, e 279,6 bilhões de passageiros por quilômetro transportado, alta de 11,3%.
Já o Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), mesmo com a redução de custos relevantes para as companhias, especialmente no querosene de aviação, que chegou a representar cerca de 50% da estrutura de despesas do setor em determinados períodos, as passagens aéreas seguem em patamares elevados, evidenciando que a demanda continua aquecida. O mesmo comportamento é observado na hotelaria: ainda que a taxa de ocupação tenha avançado 2,1%, a diária média subiu de R$ 380 para R$ 416, alta de 10,5% já descontada a inflação.
O economista ainda ressaltou que, apesar do cenário positivo, permanecem desafios estruturais, especialmente na área fiscal. O elevado nível da dívida pública exige juros altos, o que encarece o crédito e limita o potencial de expansão.
Com inflação controlada, mercado de trabalho forte, entrada de capital estrangeiro e ambiente corporativo aquecido, a expectativa é de continuidade do avanço das viagens corporativas em 2026, consolidando o Brasil como um dos principais mercados do setor na América Latina.
Para acompanhar o conteúdo completo do LVC, acesse o link.
Texto por agência com edição de Rebeca Dias
