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Foto por Istock/ bortnikau

A estratégia de seguir estranhos para explorar cidades

17 de outubro de 2018

Inspirada em escritores do século 19 e em performances de artistas contemporâneos, ideia é hoje usada para dar novo rosto ao turismo urbano

 “Seguir um estranho” é uma das instruções que o artista sérvio Miloš Tomić costuma dar a quem quer conhecer Belgrado, capital do seu país. A proposta se insere no exercício que o escritor e artista britânico Phil Smith propõe de dar o controle da exploração de uma cidade para qualquer um, escolhido ao acaso, e que se tornou um hábito literário do escritor argentino Julio Cortázar – como aparece no conto Manuscrito encontrado num bolso.

Smith regularmente dá essa tarefa aos seus alunos de teatro da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, como um exercício valioso. “A ideia é que você explore o espaço, mas que um outro alguém dite isso para você, como um neutralizador dos seus desejos”, explicou ao tabloide britânico The Sun. “A intenção – ou esperança – é que a pessoa seguida vai te levar a lugares que você não tinha visto antes”, completa.

Não há uma definição legal para o ato de “perseguir”, mas a frequência e a intenção são levadas em conta: o exercício proposto também pede antes de tudo que o espaço do sujeito seguido seja respeitado.

A ideia dos artistas de seguir estranhos tem uma herança antiga, assim como uma afinidade natural com a cidade, onde o anonimato é a regra e é fácil se esconder nas multidões. Seu ancestral pode ser encontrado em O Homem da Multidão, um pequeno conto escrito pelo escritor britânico Edgar Allan Poe em 1840, em que o narrador persegue um estranho misterioso pelas ruas de Londres – então a maior cidade do mundo – sem nenhuma razão aparente.

O texto de Poe sobre as peregrinações urbanas é visto pelo filósofo Walter Benjamin como um protótipo do flâneur – o explorador da cidade moderna descrito pelo poeta francês Charles Baudelaire, que era fã de Poe. “A multidão é seu elemento”, escreveu em 1860 (um tempo em que ela era quase toda formada por homens). “Sua paixão e sua profissão são se tornar parte da multidão. Para o perfeito flâneur, para o apaixonado espectador, é uma imensa diversão fazer moradia no coração da multidão, em meio ao fluxo e refluxo do movimento, no meio do fugitivo e do infinito.”

Entre os herdeiros de Baudelaire na Paris dos anos 1960 se incluem os situacionistas, um movimento artístico e político que explorava a cidade a pé em uma estratégia chamada dérive – uma caminhada não planejada pelo horizonte urbano, geralmente em grupos. Na época, uma das propagandas de passagens aéreas pela cidade chegava a sugerir a mesma estratégia para explorar a capital francesa.

O exercício de Smith é inspirado pelo artista conceitual estadunidense Vito Acconci, morto no ano passado e que, em 1969, elaborou a performance “Following Piece” (“Seguindo peças”) pelas ruas de Nova York. “Cada dia eu escolho, na sorte, uma pessoa andando na rua. Eu sigo uma pessoa diferente cada dia e vou perseguindo-a até que ela entre em algum lugar privado, como a casa, o trabalho etc., onde eu não posso continuar”, dizia ele.

O artista belga Francis Alÿs variou a receita de Acconci em seu trabalho The Doppelgänger, em que se propunha a ir todos os dias a uma cidade nova e encontrar alguém para seguir baseado em seus sentimentos sobre sua suposta semelhança pessoal com as pessoas que passavam.

Em 1980, a francesa Sophie Calle publicou Suíte veneziana, livro em que ela documenta sua perseguição por Veneza, na Itália, a um homem que ela conheceu em uma festa. Para outra obra, O Detetive, ela contratou um detetive privado para seguir a ela mesma pelas ruas de Paris – e então publicou um relato por meio de fotografias.

O primeiro filme do cineasta britânico Christopher Nolan, “Following”, feito 30 anos após a performance de Acconci por Nova York, mostra de forma ficcional os riscos dessa atividade, em que o personagem principal tenta interromper seu bloqueio criativo perseguindo estranhos em Londres e se envolvendo na vida de um deles, um criminoso. Sophie Calle e Francis Alÿs estão entre as pessoas que documentam seus trabalhos com textos e fotos, permitindo que as “vítimas” sejam identificadas.

Apesar de tudo, o principal mantra dos artistas que usam a estratégia de perseguição – se praticam o estilo situacionista ou usam como um jeito de gerar material literário ou turístico – é manter certa distância e preservar a privacidade dos seus sujeitos. “Você precisa se manter inócuo, porque não pode assustar as pessoas”, diz o artista e professor da Universidade de Nanjing, na China, Bill Aitchison.

“Você consegue um senso de ótima distância para ficar, porque não pode perder a pessoa de vista também. Encontrar coisas para fazer é útil: você pode sempre estar olhando o smartphone ou pretendendo falar nele. Beber e comer também é um jeito de evitar qualquer suspeita”, completa.

Uma das regras que Smith dá aos seus alunos é parar imediatamente se eles desconfiarem que seus seguidos perceberam o ato. Outra lei é que eles não devem perseguir ninguém que os faria se sentir desconfortáveis se pudessem, ou se sentissem desconfortáveis com a presença deles. “É preciso ter consciência do impacto que nossa presença possui nos outros”, finalizou ao The Sun.

Texto por: Agência com edição

Foto destaque por Istock/ bortnikau

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